
Entenda como a convergência entre a Reforma Tributária, a inteligência artificial e expansão internacional redefine as prioridades do CFO e exige uma gestão cada vez mais integrada de riscos, tecnologia e compliance
O papel do CFO mudou de forma significativa nos últimos anos, além das responsabilidades tradicionais ligadas à contabilidade, ao controle financeiro e à gestão de custos, esses executivos passaram a assumir decisões estratégicas relacionadas à tecnologia, à governança de dados, à gestão de riscos e à expansão dos negócios.
Neste cenário, esse desafio ganhou novos contornos, por conta do aumento da complexidade regulatória enfrentado pelas empresas. No Brasil, diferentes mudanças avançam simultaneamente: a transição da Reforma Tributária, com a adaptação dos documentos fiscais ao IBS e à CBS e os testes relacionados ao Split Payment, somam-se a projetos estruturantes, como a adoção do CNPJ alfanumérico.
Globalmente, a IA se tornou objeto central de governança, com referências como a ISO/IEC 42001, e marcos regulatórios, como o AI Act europeu, ganhando relevância em diferentes jurisdições. E, para quem pensa em crescer além das fronteiras, operar globalmente passou a exigir o acompanhamento contínuo de diferentes ambientes jurídicos, tributários, trabalhistas e regulatórios, que exigem monitoramento constante.
Reforma Tributária exige revisão de processos
A transição para o modelo de IVA dual, composto pelo Imposto de Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), representa uma das maiores mudanças no sistema tributário brasileiro das últimas décadas. Durante a transição, empresas precisarão administrar simultaneamente o modelo atual e o novo regime tributário. Isso significa manter as regras, cadastros, cálculos e obrigações paralelas, aumentando a complexidade operacional.
Além disso, a complexidade vai além do cálculo do imposto, exige o redesenho dos controles internos e uma visibilidade muito maior sobre toda a cadeia de suprimentos. Como a apropriação dos créditos de IBS e CBS está, como regra, vinculada à extinção do débito correspondente, falhas na emissão do documento, na identificação da operação ou no recolhimento, podem atrasar ou dificultar o reconhecimento do crédito pelo adquirente. Nesse contexto, o compliance fiscal passa a influenciar diretamente o momento de apropriação dos créditos, o fluxo de caixa e a necessidade de capital de giro.
A Inteligência Artificial como instrumento de compliance
Nesse cenário, conduzir essa transição com processos excessivamente manuais, equipes sobrecarregadas e sistemas pouco flexíveis aumenta a exposição a erros, retrabalho, atrasos e inconsistências fiscais. É nesse ponto que a tecnologia passa a ocupar uma posição central na gestão de riscos e na capacidade de adaptação das empresas.
A inteligência artificial, combinada a modelos de transformação operacional como o BTO (Business Transformation Outsourcing), já começa a redefinir os processos financeiros. A auditoria preditiva, por exemplo, traz análise cruzada de dados fiscais, cadastrais e transacionais para identificar inconsistências antes da aprovação de operações.
No caso da automação contábil assistida por IA, os sistemas podem apoiar a classificação de documentos e a conciliação de transações submetidas a diferentes tratamentos tributários, reduzindo a dependência de tarefas manuais repetitivas. Por fim, as simulações de cenários, ajudam a estimar o impacto da transição tributária nas margens de lucro de cada linha de produto ou serviço.
No entanto, o avanço da IA amplia as responsabilidades relacionadas à governança, deixando de ser uma pauta restrita à inovação ou ao departamento de TI. Agora, ela passou a ocupar um papel relevante no fortalecimento dos controles fiscais e na eficiência da gestão de caixa sob a gestão direta do CFO.
O recado para a liderança financeira é claro,: se agentes de IA forem utilizados em processos críticos, cada solução deverá ter um responsável humano, limites de atuação, critérios de supervisão e trilhas de auditoria claramente definidos, enquanto um comitê multidisciplinar acompanha desempenho, conformidade e risco. Empresas que incorporarem essa governança desde o início tendem a evitar o retrabalho e a exposição de quem só passará a tratar do tema quando o regulador fizer a primeira abordagem
Expansão Global: o desafio da conformidade local
Para empresas que buscam reduzir a dependência do mercado doméstico por meio da expansão internacional, a hiper-regulamentação ganha novas camadas. Cada país com o qual o negócio interage possui um ecossistema próprio de regras tributárias, trabalhistas, societárias, contábeis, cambiais e de proteção de dados, além de exigências específicas para movimentação e repatriação de recursos.
Ao combinar governança interna com parceiros especializados em processos financeiros locais e plataformas integradas em nuvem, as corporações podem ganhar escala e ampliar a visibilidade sem transferir a responsabilidade final pelo controle. Na prática, isso permite apoiar a conformidade com as regras de cada país, por meio de conhecimento local, processos padronizados e atualização regulatória contínua, além de consolidar indicadores financeiros e operacionais em uma visão global, preservando o detalhamento e as particularidades de cada jurisdição.
Equilibrar os pilares entre a complexidade fiscal brasileira, a disrupção tecnológica e as ambições globais, exige que o líder financeiro ultrapasse a lógica puramente operacional e conecte execução, tecnologia, risco e estratégia. Assim, o CFO preparado para esse novo cenário não concentra sua atuação apenas na supervisão de rotinas transacionais, ele lidera a estratégia de dados que orienta os investimentos e sustenta o crescimento da empresa.
Publicado em 06 de agosto de 2026 · Redação Marconi Nunes Contabilidade
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